O RECORDE É NOSSO E NINGUÉM TIRA

cruzeiro.villaVem aí mais um confronto entre Cruzeiro x Villa Nova, vai ser a partida de número 239 entre os clubes. A raposa leva ampla vantagem na disputa: 121 vitórias, 72 empates e 45 derrotas. Um desses êxitos foi marcante para a torcida do Cruzeiro, entrou para a história do futebol mineiro e eu estava lá.

O ano era o de 1997, ao contrário do que quase sempre acontece no campeonato estadual, Cruzeiro e Atlético não fizeram a final do torneio, um intruso se meteu entre os rivais, o Villa Nova de Nova Lima.

Na verdade, foi um ano diferente para o futebol mineiro. O nosso rival caiu nas quartas de final para o Villa, O Cruzeiro, na mesma fase, passou pelo Montes Claros. Na fase de semifinal deu Villa contra Social e Cruzeiro contra América.

Cruzeiro e Villa chegaram a finalíssima do Campeonato Mineiro. O primeiro jogo da decisão aconteceu em Nova Lima, o leão do Bonfim rugiu mais alto e venceu a partida por 2 a 1. O resultado conquistado em casa, deu direito ao Villa de jogar por um empate no Mineirão.

E aí chegou o dia 22 de junho de 1997, conhecido também como o dia da final entre Cruzeiro e Villa Nova, na Toca III. A diretoria da Raposa fez uma promoção para sua torcida, mulheres e crianças não pagariam entrada.

Então. Peguei meu irmão, o Hyago, que tinha apenas 3 anos na época, o coloquei na Brasilinha do meu avô e picamos a mula para o Gigante da Pampulha. Como de costume eu fui bem cedo, sempre gostei de chegar ao estádio muitas horas antes do início da partida e com criança ainda, a minha decisão de chegar cedo se fazia mais do que necessária.

Mesmo indo cedo, notei que já existia um trânsito que não era normal para o horário, mas chegamos sem maiores problemas ao estádio, deu até para arrumar uma vaga para o Brasilhão do meu avô no estacionamento do Mineirão.

Coloquei meu irmão no colo e adentramos ao estádio. Ajeitei um bom lugar  e nos colocamos a aguardar. Bom, a torcida começou a chegar, a chegar, a chegar… não parava de chegar, cada vez tinha mais gente, o negócio já estava lotado e de repente entupiu. Não dava para ver um espacinho do concreto das arquibancadas, da geral ou das cadeiras do Mineirão. O estádio estava tomado.

O lugarzinho bacana que eu tinha arrumado para eu e meu irmão vermos o jogo, já não existia mais. Coloquei o Hyago em meus ombros, mal dava para respirar, um desconforto total.

Mas foi só a bola rolar, para que o problema de falta de espaço fosse esquecido… Mentira, foi ai que eu fiquei preocupado mesmo. É normal estádio de futebol “balançar”, estrutura de concreto que não movimenta cai, mas o estádio não estava só balançando, ele estava se movimentando, parecia que tinha vida. Começou a passar pela minha cabeça o pior, o de que existia um risco real do estádio vir ao chão.

Mas aos 10 minutos de jogo, o atacante Marcelo Ramos, me fez esquecer da possibilidade de ter uma tragédia no Mineirão. Com um belo chute Cruzado de dentro da grande área ele balançou as redes do Villa. Na empolgação, joguei meu irmão para o alto (rs…) e ele simplesmente não voltou. O treco tava tão cheio, que um senhor que estava logo atrás de mim, “catou” o Hyago em seu voo e os dois estavam pulando, festejando a abertura do placar. Peguei meu irmão de volta, claro. (Me arrependo disso até hoje, ele é um mala, se eu o tivesse perdido… puxa, bom deixa para lá).

Com o gol a empolgação da torcida, que já era muita, triplicou e aí o negócio complicou. A falta de espaço começou a se tornar um problema, muitas pessoas começaram a se desentender, a fase do Mineirão de balançar já tinha sido superada, o que acontecia depois do gol era que ele estava dando um “rolé” pela Pampulha. Dava para ver a divisórias da arquibancada se mexerem, era assustador ver a diferença que dava de uma para outra, a impressão que eu tinha, era que a arquibancada cairia sobre a geral.

Em minha cabeça a tragédia já estava desenhada, então resolvi pegar meu irmão e ir embora, era o correto a se fazer, não tinha como ficar com uma criança de apenas 3 anos naquele inferno. Esperei acabar o primeiro tempo e vazamos. Com muita luta chegamos a saída e lógico, ao chegarmos a Brasília percebemos que não tínhamos como seguir para casa, estávamos ilhados por uma imensidão de carros.

O Jeito era nos acomodarmos no carro e ouvir o segundo tempo pelo rádio. Foi uma agonia, estar ao lado do estádio e não poder ver o jogo. O tempo ia passando a apreensão aumentando e lá pelos 35 minutos da segunda etapa eu fiquei assombrado. O estacionamento do Mineirão estava sacolejando. Rolou um breve terremoto no entorno do Mineirão (eu juro que rolou isso).

Neste momento eu já não estava somente preocupado com o jogo, mas eu já tinha certeza absoluta que o estádio viria a baixo. O que era para ser um momento de alegria se tornaria a maior tragédia de Minas Gerais.

Fim de jogo e graças a Deus o estádio se manteve de pé. Peguei meu irmão e tentei voltar com ele para dentro do Mineirão, apesar de todo o esforço, não conseguimos, era impossível arrumar um espacinho no meio daquela multidão.

Fiquei puto de não conseguir ver a festa dos jogadores em campo, o capitão levantando a taça, a volta olímpica dos campeões, mas ali do meu lado, tinha um tampinha de 3 anos que não estava nem aí para o que acontecia dentro do estádio, ele queria era farrear, pulava, gritava, rodopiava no ar, estava feliz da vida, estava vivendo o momento.

Como as crianças são sábias, se as observássemos mais… se não tem remédio, remediado está… entrei na onda do meu brother, afinal de contas era dia de comemorar, o Cruzeiro tinha conquistado o seu Campeonato Mineiro de número 29.

Ó já ia esquecendo. Essa final entre Cruzeiro e Villa Nova entrou para a história do futebol mineiro e do Mineirão. Foi o jogo de maior público da história do estádio. 132 mil e 834 pessoas testemunharam a conquista do Cruzeiro.

Esse recorde é nosso e nunca mais será quebrado. O que é justo, o maior time de Minas, tem que ser detentor do maior público, do maior estádio da cidade.

Abraços

Rodrigo Genta

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Uma resposta de “O RECORDE É NOSSO E NINGUÉM TIRA”

  1. Raffa Jesus 19 de Março de 2016 at 19:04 #

    Que texto bacana genta…muito boa história.mesmo ñ sendo cruzeirense e mineiro posso imaginar como foi marcante pra ti e especialmente pro teu irmão essa partida… e que cada vez que a raposa se defronta com o adversário de Nova Lima as memórias de quase vinte anos vêm à tona. Abraços pra ti e pro pessoal do rivalizando, amanhã estarei na audiência aqui de Porto Alegre!

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